segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

"Santa's Countdown to Christmas: 24 Days of Stories": a minha resenha de um calendário do advento muito divertido



"Santa's Countdown to Christmas: 24 Days of Stories ", de Kim Thompson, com ilustrações de Élodie Duhameau foi-me cedido pela Netgalley e pelo editor, para que eu fizesse uma apreciação honesta deste livro. Não há de momento edição em português.

Publiquei a minha opinião no Goodreads com 4/5 estrelas e a seguinte "review":


"Everybody knows advent calendars. My kids love those with chocolate. But they will love this one too: an advent calendar of Christmas stories. These tell us how Santa, the elves, and the reindeers are preparing themselves for the big day, Christmas day. The stories, thought extremely short, are very amusing. The illustrations help to turn this book into a very fun reading. I think it will add to the pleasure and excitement of kids waiting for Christmas day.

I received this book as an eARC from the publisher and NetGalley in exchange for my honest review".





sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A história da menina que era alta como uma estaca

Shelagh Inglesby



Ai, quem de nós nunca teve estas crises na (pré-)adolescência? Por se achar demasiado alta, demasiado baixa, demasiado pálida, demasiado corada, com cabelo demasiado liso ou com caracóis a mais, demasiado gorda, demasiado magra... sempre achávamos que tinhamos algo em demasia ou de menos...na idade em que ainda não sabemos quem somos e embora o espelho seja, como sempre é, sincero, os nossos olhos apenas vêm as nossas inseguranças. A boa notícia é que isso passa! :) Não passa?



Alta como uma estaca

Alexandra arranca os ganchos coloridos do cabelo preso e solta-o.


Nem aos ombros lhe chega. Não é comprido nem curto nem nada bonito.

- Buu!! - Alexandra faz uma careta para a sua imagem no espelho. O cabelo faz lembrar as repas do seu cão Bitó.

A um galgo até ficam bem. A Alexandra, não.

Nem sequer tem uma cor definida o cabelo de Alexandra. Não é loiro nem castanho. Está entre loiro-escuro e castanho claro.

Furiosa, Alexandra agarra no sabonete molhado que está pousado em cima do lavatório e besunta o espelho todo com riscas cor-de-rosa diagonais, sobre a imagem da sua cara.

Alexandra não se suporta a si própria.

Nem aos seus olhos azul-pálido.

Gostava era que fossem castanho-escuro, como os da Manuela, a vizinha do lado.

Pior do que as repas à cão e dos olhos azul-claro é a sua altura. É um palmo mais alta do que o maior rapaz da turma. Ainda ontem o pai tornou a dizer:

- A Alexandra cresce como um pé de feijão: cada vez mais!

E o que hão-de dizer os parentes que não vêem Alexandra há muito tempo?

- Meu Deus! Cresceu tanto! Daqui a pouco estás maior do que nós!

Ainda bem que não dizem:

- Olá, girafa, como estás!?

Durante a noite, Alexandra sonha que tem uns pés muito pequeninos e umas pernas curtas, mas um pescoço enorme, enorme como um campanário e, bem lá no cimo, balança uma cabeça pequena. Vê-se a correr por uma praça fora com muita gente atrás dela, mas não consegue esconder-se em lado nenhum.

O pior é quando recebem visitas que nunca tinham visto Alexandra.

- Aah! - costumam dizer à mãe, e depois fazem uma pequena pausa. - Então esta é que é a tua filha!...

E soa como se dissessem: então este é que é o camelo de quem se fala na família e entre os amigos.

Alexandra exagera um bocadinho. Como não gosta de si, põe na boca dos outros a ideia que tem de si.

É certo que Alexandra é alta para a idade, mas não é uma girafa, um camelo ou um dinossauro. Dinossauro, inventou-o ela agora mesmo.

E hoje gostava de estar especialmente bonita. Para o engraçado do tio Ralph que, passados quatro anos, os visita de novo em Viena. O tio Ralph vive em Londres e está casado com a irmã da mãe.

Mas, quando vir Alexandra, também ele vai, com certeza, dizer:

- Então esta é que é a pequena Alexandra?

Ela não tem nada de que se possa gostar à primeira vista. Não é pequena nem graciosa como a Manuela do lado. Não tem olhos escuros nem cabelos bonitos como os da Manuela, castanhos cor de avelã. Alexandra é um feijão e os feijões não são dignos de apreço.

Para além do pai e da mãe, mais ninguém é carinhoso para com um feijão. Alexandra vê muito bem a diferença de trato em relação à Manuela do lado. Se cá vem quando estão com visitas, as visitas ficam logo com os olhos a brilhar, embora ela nem pertença à família.

Abraça-se a Manuela, até se lhe faz festas no cabelo e pergunta-se-lhe o nome, como se isso fosse de uma grande importância.

Na semana passada, na aula de Desenho, Alexandra teve de fazer um auto-retrato, mas a folha era muito pequena. Começou em baixo, com os pés, e ainda só ia na testa quando o papel acabou, em cima. Já não houve espaço para o cabelo, e assim teve de ficar careca.

De algum tempo para cá, adoptou uma má postura: um pouco inclinada para a frente, os ombros ligeiramente encolhidos, as costas um pouco curvadas. Nesta posição, Alexandra parece uns bons dois centímetros mais pequena do que aquilo que realmente mede.

Quando, na aula, é chamada ao quadro, encolhe ainda um pouco a cabeça e avança com a nova postura de "dois centímetros a menos". Corada, à frente do quadro preto esverdeado, sendo a única de pé no meio dos outros vinte e três colegas sentados, parece-lhe ser maior do que nunca. Por isso, dobra ainda imperceptivelmente os joelhos, o que lhe retira mais meio-centímetro.

O meio-centímetro faz muito bem à auto-estima de Alexandra.

A mãe põe a mesa para a chegada do tio Ralph.

- A Manuela não pode vir cá hoje, quando o tio Ralph cá estiver! Pelo menos hoje, queremos estar a sós com ele - diz Alexandra.

A mãe tira uma pétala amarela a uma rosa.

- Também acho melhor assim. Agora que o Ralph acaba de chegar. Mas diz lá. - a mãe vira-se para Alexandra. - Discutiste com a "Manni"?

- Não. sim. -- Alexandra não quer, de modo nenhum, revelar o verdadeiro motivo: a Manuela tem os olhos castanhos-escuros e o cabelo cor de avelã e é pequena e delicada. O tio Ralph nem devia vê-la à frente. Pelo menos, por enquanto.

- É grave? - pergunta a mãe. - A Manni é sempre tão querida. O que é que se passa entre vocês as duas?

- Ah, não é nada - abandona a sala apressadamente.

"Manni" . Aqui está outra coisa enjoativa. "Manuela" é muito mais bonito do que aquele diminutivo, que é mesmo estúpido. Ainda assim... "Manni" é um nome carinhoso, uma coisa para meninas pequenas, queridas, delicadas.

Só os pais é que a tratam por "Xana". Mais ninguém se lembraria de lhe dar um nome pequeno. Um nome comprido, com imensas letras, assenta como uma luva a um longo pé de feijão.

- Põe os ganchos do cabelo - aconselha a mãe, assim que a filha volta à sala. - Pelo menos os cabelos parecem em ordem. Se o avião de Londres tiver aterrado a horas, o pai pode chegar aí com o tio Ralph a qualquer momento.

- Com os ganchos fico mal!

De repente, sente os olhos marejados de lágrimas. A mãe não dá conta porque está de costas, a pôr a mesa. De repente, Alexandra ganha raiva também à mãe, que põe a mesa, que dobra os guardanapos em leques azuis-claros e que arranja as flores da jarra para que pareçam bonitas, vistas de qualquer lado.

"Bem posso compor-me quanto quiser", pensa Alexandra. "Com ou sem ganchos fico sempre sem graça nenhuma."

Olha! Aquela é a voz do tio Ralph, com o seu inglês engraçado, todo enrolado. A porta vai abrir-se a qualquer momento.

Alexandra corre para a casa de banho, pega nos ganchos em forma de rosa e prende-os no cabelo, de ambos os lados.

Ao menos os ganchos são bonitos!

- Olá! - grita a mãe abraçando o cunhado.

O tio Ralph pousa a pesada mala preta, deixa descair dos ombros o saco de desporto de onde sai uma raquete de ténis.

- Great to be back home - exclama, como se a sua casa fosse ali e não em Inglaterra. Com o Tio Ralph, uma pessoa sente-se logo à vontade! Ri muito e sabe montes de boas anedotas. Até anedotas para crianças.

Está moreno e, com o bigode crescido dos lados, até se parece um pouco com um leão-marinho.

Alexandra observa o tio Ralph do vestiário, onde se escondeu até se decidir a ir cumprimentá-lo. Dantes, quando era pequena, corria para ele de braços abertos.

Hoje, não está para corridas. O tio Ralph ainda se assusta se vê uma coisa tão alta a correr para ele.

Um pé de feijão não corre.

- And where is little Alexandra?- pergunta o Tio Ralph, procurando-a com o olhar à sua volta.
Alexandra estremece.

- Bem - diz o pai, não sem orgulho. - Até vais admirar-te. Da little Alexandra fez-se uma grande Alexandra. Espero, caro Ralph, que, a partir de hoje, fales alemão! O meu inglês não vai além de good morning e good evening.

- Okay! Então, onde está a Alexandra? - a forma como o tio pronuncia soa a "Aleksandruá"!
Devagarinho, Alexandra sai da meia-escuridão e dirige-se ao tio na sua postura de "dois centímetros e meio a menos".

Ele abre os braços cheio de uma alegria efusiva. É bonito porque o Tio Ralph "esmaga-a" exactamente como dantes.

- My goodness! - espanta-se. - What a big girl! Mas que grande rapariga tu ficaste!

Os cantos da boca de Alexandra encolhem-se e descaem.

- Like a manequim!! - acrescenta o tio Ralph radiante.

Da forma como o tio pronuncia a palavra estrangeira, ela não pode significar nada de feio. Nenhuma girafa, nenhum dinossauro.

Ele diz: "man'cã" e pronuncia as últimas sílabas pelo nariz como se estivesse constipado.

A mãe ri porque reparou na expressão de surpresa e confusão de Alexandra.

- Manequim é uma palavra francesa - explica. - Já te contei uma vez que a minha irmã Deborah fazia desfiles. Era manequim.

- Ah! - diz Alexandra.

Antes de poder continuar a falar, o Tio Ralph fá-la girar sobre si mesma, observa-a de todos os lados e prega-lhe na testa um beijo áspero por causa do bigode.

- Asseguro-vos - repete - que vai ser igualzinha à minha Deborah. Até tem os mesmos olhos claros! Beautiful blue eyes!!

Alexandra fica espantada. Que surpresa! Abre bem os olhos azul-água porque assim parecem mais azuis e de certeza que ficam mais bonitos.

O pai dá pancadinhas na cara da filha. É o que faz quando está orgulhoso dela, mas Alexandra não suporta aquilo. Já não é nenhum bebé. E agora muito menos.

É uma futura manequim.

- Bem, e agora vamos merendar. Tens de descansar da viagem - diz a mãe.

- Anda cá! - o Tio Ralph chama Alexandra com um gesto. - Senta-te à minha beira!

Durante a merenda, Alexandra desabrocha como um pé de feijão, que cresce muito direito, com muitos rebentos brancos. Alexandra sente-se outra.

O tio Ralph segura-lhe na mão o tempo todo, excepto quando empurra com o polegar um pedaço de bolo para o garfo.

- Lá - diz, referindo-se a Londres - muitas raparigas são altas. Altas e elegantes como Alexandra, mas não tão bonitas! - e pisca o olho esquerdo. - Mas os vienenses são todos uns arõezinhos!

- Anõezinhos - corrige-o o pai.

Depois do leite achocolatado, Alexandra levanta-se e dirige-se ao quarto de banho, de costas direitas, ombros direitos e com os seus dois centímetros e meio novamente recuperados.

Vai direita ao espelho e apaga, com uma toalha húmida, as riscas de sabão.

O reflexo de Alexandra no espelho vai-se tornando mais nítido. Vê os seus olhos azul-água e sorri, radiante, para a sua nova imagem.

Alexandra tira os ganchos do cabelo. Não precisa deles. Assim também é bonita.

O tio Ralph foi muito, muito simpático para com ela, segurou-lhe na mão e disse-lhe que era bonita. E em Londres toda a gente é alta. E elegante.

"Afinal", pensa Alexandra, "sempre vou dizer à Manuela que venha cá hoje."



Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
Munique, DTV Junior, 1990
(Tradução e adaptação)

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A relação do livro com os mais novos está a mudar? - Artigo do site EDUCARE






Os hábitos de leitura sofrem com as novas tecnologias? A relação do livro com os mais novos está a mudar? O que se pode fazer? Como devem ser usados os manuais escolares? Sublinhar ou não sublinhar? Jorge Ascenção, Manuel Pereira, Filinto Lima e Paulo Guinote partilham as suas opiniões sobre estes assuntos.

Ler, livros, leitura. Juntar palavras, construir frases, contar ou inventar histórias. Descobrir novos mundos, entrar no reino da fantasia, acompanhar vidas reais ou imaginárias. Aprender, descobrir, pensar. Ler, sonhar, refletir. Construir valores, consolidar princípios. Crescer. Os hábitos de leitura mudam, as novas tecnologias estão para ficar, os alunos leem menos, qual a importância do livro nos primeiros anos da escola? Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, e Paulo Guinote, professor de Português, responderam a várias questões sobre leitura e o que está à sua volta.



“Uma criança que cresce com os livros, que aprende a ‘saboreá-los’ e a senti-los será uma pessoa da arte, da cultura e da cidadania. Será gente e com gente. Será seguramente alguém que vive para além de si e que melhor compreenderá o mundo e a humanidade, vivendo e fazendo parte ativa da sua construção social.
O livro é uma janela para o mundo que tem que se abrir e fechar conforme as circunstâncias. Ajuda-nos a construir uma visão do mundo, a conhecê-lo e a integrá-lo ao mesmo tempo que nos faz saber estar protegidos desse mesmo mundo”. É desta forma que Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), fala do livro e do que ele representa para quem descobre o mundo. 

O livro é a base da construção de valores, do valor do trabalho, do afeto, do respeito, da amizade e do amor. Dos valores que fazem da vida um bem maior de experiência e de felicidade. Mas os hábitos de leitura têm vindo a sofrer alterações. São as mudanças tecnológicas, a alteração de estímulos, e outras coisas. “A pressão programática dos extensos currículos escolares, as metas e a obsessão por resultados escolares quase limitados à obtenção de uma nota classificativa (quem há anos atrás falava ou relevava os rankings) e a cada vez maior competitividade sem que se valorizem outras aspetos da formação e do desenvolvimento pessoal, onde o que importa é estar melhor e não o ser bom, são alterações dos últimos tempos que influem nos hábitos de leitura”, refere o presidente da CONFAP. 

O livro é um amigo, um manual escolar também. A política de reutilização dos livros escolares no 1.º Ciclo do Ensino Básico condicionará a sua utilização, já que os manuais são cedidos gratuitamente com a indicação de serem devolvidos no final do ano escolar. Como deve então ser esta apropriação do manual escolar no primeiro nível de ensino? “Quando falamos de livros escolares, estamos a falar de um livro de trabalho, por isso lhe chamamos manuais. Um manual é para manusear e adequar ao estudo de quem o utiliza. Por isso não faz sentido impor regras de utilização comuns e uniformes”, refere Jorge Ascenção. Sublinhar ou não sublinhar? Sublinhar a lápis, a caneta, a marcadores de várias cores? “Para muitas crianças do 1.º ano do 1.º Ciclo este manual é o seu início de contacto com o livro e deve ser uma experiência inesquecível de afeto e de prazer com o cheiro e o folhear do livro.” Uma experiência que se quer inesquecível e, por isso, o dirigente da CONFAP defende que tudo deve ser feito para que esses primeiros livros sejam guardados na memória e em casa. “Esta deve ser uma das missões da escola e as políticas devem-no permitir e potenciar. Doutra forma poder-se-á estar a condicionar o gosto pelo livro e até o percurso académico de algumas crianças”, observa.

“O livro é para usar e abusar. Com respeito e responsabilidade, o que não significa necessariamente que não se possa sublinhar ou tomar notas. Depende do livro e do que se pretende com a sua utilização. Percebo o discurso do não estragar, no sentido em que devemos estimar o livro e não maltratá-lo, mas com as crianças temos que ter cuidado com as palavras para não se sentirem coagidas”, avisa. A ideia é que percebam que o livro é um suporte para o seu conhecimento e desenvolvimento. “O discurso de não estragar vai acabar por prejudicar os que mais precisam de ser incentivados por razões que todos entendem. Outra coisa é o estragar sem utilizar ou o negligenciar o cuidado com o livro, isso deve ficar claro em qualquer circunstância e nomeadamente se o livro é oferecido pelo erário público. Mas não se pode penalizar a utilização do livro de acordo com as respetivas necessidades de aprendizagem.” 


Pequenas notas são “semáforos da memória” 

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), faz suas as palavras do escritor Mário Cláudio que afirma que tem de haver colo para ler. E ler é essencial na formação da personalidade, na mecânica da leitura, na aquisição de vocabulário para expor ideias, para o sentido crítico, para argumentar, comentar o mundo, desenvolver a criatividade e a imaginação, para adquirir valores. “Uma família que não lê não forma para a leitura.” 

Muitas vezes, o primeiro contacto com os livros acontece no primeiro ano de escola. “Estudar pressupõe sublinhar, fazer apontamentos. Se o aluno não o pode usar como instrumento de trabalho logo desde os primeiros anos da sua escolaridade, não será também assim que o vai encarar nos anos mais avançados.” Para Filinto Lima, um manual é para ser usado. “Impedir que os alunos sintam o livro como instrumento de trabalho pode ser prejudicial. Não sabemos como será o ensino no futuro, mas seja qual for o suporte de informação deverá ser permitido que se façam anotações (mesmo nos livros digitais, já há processos de anotar, fazer notas laterais, esquemas para estudo), porque é assim que se estuda, se faz a seleção da informação que se pretende para cada caso.”

Os livros de estudo devem, portanto, ser usados como sempre foram. “Lidos, explorados, anotados, sublinhados e guardados. Sempre há qualquer coisa que podemos aprender nos nossos velhinhos livros. Mesmo quando acharmos que já nada podem fazer por nós, os bons livros sempre trazem à memória ensinamentos, métodos de aprendizagem e pequenas coisas que nos escaparam quando fomos estudantes”.

O livro é um amigo no processo de socialização das crianças e jovens, um instrumento de desenvolvimento, de conhecimento, de habilidades de escrita, de criatividade, de interpretação. Um amigo que ajuda a conhecer melhor o mundo. “A apropriação do livro como instrumento de crescimento e aprendizagem, desde muito cedo, garante um maior equilíbrio nas aprendizagens e promove o sucesso formal e informal nas mesmas. Nesse sentido, o livro, de acordo com o nível etário, deve ser sempre visualmente estimulante, colorido em idades mais precoces e estruturado de forma apelativa, oferecendo manchas gráficas motivadoras e conteúdos que vão ao encontro da necessidade reprodutiva da imaginação das crianças e jovens. O livro, para os jovens, deve ser sempre o primeiro contacto estruturado com o mundo que fica para além das fronteiras visíveis”, refere Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE).

Manuel Pereira pertence a uma das gerações que se habituaram a usar os livros de estudo como bloco de notas. Para sublinhar, fazer apontamentos, notas de rodapé. Mais do que um hábito, uma estratégia promovida como boa prática. Os livros académicos estavam noutro patamar, protegidos de tais práticas, quase como uma questão cultural. Na sua opinião, os livros, nomeadamente no Ensino Básico, devem continuar a ser instrumentos a apropriar pelos utilizadores. 

“Sublinhar ou colorir informações são estratégias difíceis de substituir. Registar pequenas notas é como colocar semáforos de memória na informação marcante ou mais relevante dos aprendentes. Daí que, percebendo o princípio que enforma a política de empréstimo de manuais escolares, não deixamos de registar, contudo, a enorme dificuldade que é essa mudança de paradigma. Admitimos a necessidade de reformular o conceito de livro académico, nomeadamente ao nível do Ensino Básico porque, de facto, a estrutura dos mesmos propicia as práticas tradicionais que agora se pretendem alterar”, adianta o presidente da ANDE e diretor do Agrupamento de Escolas de Cinfães.

Nada se muda de um dia para outro, mas Manuel Pereira considera que é necessário repensar o conceito de manual escolar. “Talvez esse, um passo a ser experimentado antes, para depois se poder estimular a devolução de manuais para posterior reutilização. O livro não pode ser um objeto intocável, antes deve ter uma relação quase quinestésica com os seus utilizadores e nesse sentido deve ser usado, manuseado e utilizado”, defende.

Para onde caminhamos nesta relação com os livros, nestes novos hábitos de leitura? “Os mais novos nascem agarrados ao suporte digital. Normalmente para jogos ou coisas mais supérfluas, como as redes sociais, ou mesmo para comunicarem entre si. Hoje os seus espaços de encontro são no computador, telefone ou tablet. Poderemos nós impor outros gostos ou relações? Mesmo que o pudéssemos fazer não teríamos o resultado pretendido, porque ninguém se desenvolve sem liberdade de escolha. O que precisamos é de ser capazes de descobrir e perceber como incentivar a leitura através de propostas que desafiem a criatividade e o espírito crítico das crianças e dos jovens”, refere Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP). 

O que pode ser feito? Estimular a relação com a leitura, respeitando vontades e capacidades dos mais novos. Trabalhar de forma transversal as diferentes áreas do conhecimento. Trabalhar mais nas bibliotecas. Explicar a importância do livro na compreensão do dia a dia. “O aroma do livro insere-se no nosso cérebro e enraíza-se na nossa memória fixando a vontade de voltar ao seu contacto”, sublinha o dirigente da CONFAP. 

As novas tecnologias vieram para ficar, facilitam o acesso à informação e às histórias, exigem pouco esforço, e os jovens não sentem a necessidade de ler. “A escola, por vezes, também mata a vontade de ler ou não seduz para a leitura. Ou a impõe, e a obrigatoriedade é meio caminho para a rejeição, ou retira o tempo necessário para o fazer priorizando outras competências, ou não seduz para ela: o docente que não lê não motiva para a leitura”, observa Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP). “Atrevo-me a dizer que os fracos hábitos de leitura serão nefastos para os homens e mulheres do amanhã já que lhes vai ser exigida a criatividade, o empreendedorismo e atualização de conhecimentos ao longo da vida. Só quem dominar a leitura e souber transformá-la em conhecimento conseguirá intervir de forma responsável na sociedade”, acrescenta.

Mas há coisas a fazer. Apostar na leitura, educar as famílias nesse sentido, incutir na sociedade que é fundamental valorizar esse hábito. “Se a escola encarar a leitura como uma mais-valia para a formação global da criança ou jovem dando-lhes tempo para ler e encarar a leitura não como um enfado, mas como uma fonte de prazer e fruição, então não teremos razões para alarme porque eles voltam.” Eles voltam a ler. 

Os hábitos de leitura têm vindo a sofrer alterações substanciais ao longo dos últimos anos, nota-se um certo declínio da leitura como instrumento tradicional. Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), olha para tudo isso não como problemas, mas como oportunidades. “A leitura não perdeu importância nem o livro perdeu espaço. Motivar para a leitura requer, hoje, dinâmicas motivacionais diferentes e o recurso a novos estímulos menos formais e mais próximos das vivências experienciadas de cada um”, realça. 

“O aparecimento de novos centros de interesse também se constitui como oportunidade na medida em que o próprio livro se consegue reinventar e oferecer, ele próprio, novos caminhos. Quando até há uns anos, o livro não tinha qualquer concorrência no processo motivacional proposto por pais e educadores, surgindo como o arquétipo do conhecimento, hoje, as novas tecnologias propostas pela Internet e por todas as valências a ela associadas  oferecem um manancial de espaços motivacionais estimulantes, e mesmo viciantes, que não deixam espaço para o regresso ao livro, entendido, claro, como instrumento tradicional de leitura”. “É claro que o livro e a leitura não perderam o seu papel fundamental. Continuam a ser opções fundamentais na construção académica estruturada do conhecimento e da formação pessoal”, acrescenta o dirigente da ANDE. 


Uma chave para novos mundos 

Para Paulo Guinote, professor de Português, licenciado em História e doutorado em História da Educação, que durante anos geriu o blogue A Educação do Meu Umbigo, um dos mais lidos sobre temas educativos, os livros de estudos são como amigos que não magoamos, mesmo quando brincamos com eles. “Como qualquer outro ‘utensílio’ que usamos para uma função, mas não deitamos fora depois desse uso. Os livros de estudo são companheiros e, em simultâneo, cápsulas do tempo dos seus utilizadores, para quem podem constituir um inestimável e indispensável elemento de construção da memória e identidade pessoal. Os livros de estudo ajudaram-nos e ajudam-nos a sermos o que somos”. 

Promover a leitura no suporte tradicional e tornar os livros mais acessíveis, com preços adequados, são caminhos possíveis. “O aumento dos níveis de leitura não passa por campanhas em que se anunciam futuros apenas digitais, desmaterializados e em que o objeto-livro de torna financeiramente pouco acessível. Há que adaptar o preço da oferta de forma a alargar a base da procura e não investir apenas num nicho estável de compradores recorrentes. O preço de certos livros para crianças e jovens é demasiado elevado, bastando comparar com o que é praticado em outros países (e estou a ter em conta a necessidade de pagar a tradução e os pagamentos de direitos de autor). Há livros a 12-15 euros de autores já no domínio público, quando em Inglaterra essas coleções têm preços de 3-5 euros. A inserção de algumas ilustrações não justifica a discrepância”, conclui. 

Paulo Guinote olha para um livro como “uma chave que abre o acesso a um mundo novo, seja de conhecimentos sobre um dado tema, seja da imaginação dos autores”. “Um livro deve ser um ‘objeto’ que, quando aberto e interpretado, permite a transformação do seu leitor, trazendo-lhe uma mais-valia que deve ser mais do que meramente utilitária, contribuindo para o seu bem-estar e felicidade”.

Nunca gostou de escrever nos livros, a menos que fosse obrigado. Em seu entender, a apropriação do livro não passa necessariamente por sublinhar ou fazer anotações, práticas que, em seu entender, podem não interferir na relação com os livros. “Acho mais perigosa a ideia de ‘desmaterializar’ os manuais escolares, tornando-se algo imaterial e não manuseável pelos alunos. O livro foi ao longo do tempo um ‘espaço’ para o diálogo entre o seu conteúdo e o leitor, não sendo as anotações o mais importante. Acho que o ‘fim’ dos livros físicos é um atentado muito maior a essa relação de familiaridade”, comenta.

“O não estragar os livros nunca pode ser uma mensagem errada. O que deve sublinhar-se é uma utilização correta e responsável dos materiais escolares. Foi graças a isso que pude manter os meus livros da ‘Primária’ e ainda os ter, décadas depois. Mesmo se resolvi neles alguns exercícios. O livro não deve ser ‘sacralizado’ da forma errada. É um objeto que manuseamos, que exploramos, mas que não devemos estragar de forma desnecessária.”

O fim anunciado dos livros em suporte físico preocupa Paulo Guinote, mas, apesar da ameaça dos meios digitais, o professor verifica que a área infanto-juvenil é dos setores editoriais que mantêm maior dinamismo. “Uma coisa boa foi a promoção ativa da leitura a partir das escolas, o PNL é das medidas menos controversas na área da Educação, outra a permanência do gosto dos ‘miúdos’ por lerem num suporte tido como tradicional; por fim, uma terceira coisa boa é a qualidade média do que é editado, seja nacional ou importado. E não é apenas o fenómeno ‘Harry Potter’. O fenómeno menos bom é a insistência num discurso que parece estar sempre a anunciar o fim do livro tradicional e o suporte digital como o único ou dominante ‘no século XXI’. Quem isso faz, para além de objetivamente prejudicar o livro, é mais prisioneiro de algumas modas do que propriamente um profeta certeiro”, refere. 

Artigo de Sara Oliveira para o site EDUCARE, em 21-09-2017

"The Little Red Wolf ": a minha resenha de uma versão invertida do conto tradicional









"The Little Red Wolf", de Amélie Fléchais (autora e ilustradora), foi-me cedido pela Netgalley e pelo editor,  para que eu fizesse uma apreciação honesta deste livro. Não há de momento edição em português. 
Publiquei a minha opinião no Goodreads com 4/5 estrelas e a seguinte "review":

"This unconventional book has full page magnificent illustrations with a vintage touch where, in the middle, the text is handled in small but meaningful doses.

It’s a dark fairy tale that subverts the original traditional tale of Little Red Riding Hood, where the wolf is the victim and the little girl is the charming dangerous stranger that lures the young wolf into a trap.

The real enemy is the humankind.

There is a story inside the story that explains the main plot: one in the humans perspective and other in the wolf’s “real” perspective.

It’s short but it shocks and delivers a powerful message. Good for Halloween reading to the kids, followed by a discussion about how appearances can be deceiving and there can be two sides to one story. Hear both sides before you judge the truth of it.

The little wolf in the red cape seems sweet but it goes on eating a cute dead rabbit. The appearance of harmless, innocent and cute is really deceiving in this story.

It’s surely not a Disney style retelling or a boring politically correct version.

A bit macabre but contains good advice, warning about dangers that exist in real life.



I received this book as an eARC from the publisher and NetGalley in exchange for my honest review".









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